terça-feira, 29 de abril de 2014

Choque inicial ... em 2008

Este texto na verdade foi um email que escrevi para um amigo pouco tempo depois que cheguei em Pequim para morar pela primeira vez. Isto foi em agosto de 2008!!! Resolvi postar porque em muitos aspectos ele mostra  bem um pouco da confusão por que passamos todos os malucos que resolvem vir pra cá viver de "cabeça pra baixo".  Com certeza eu já aprendi qual xampu comprar e não como atum sabor xixi de cabrito (eu inventei o sabor) e devo mesmo confessar que hoje me sinto em casa aqui, mas continuo afirmando que viver na China pode ser tudo, menos um tédio! Então, lá vai, um gostinho de nostalgia.


"Casa nova e ... vazia! Claro que tinha camas, sofá, geladeira, fogão e o basicão. Mas nem só de basicão vive uma família. Havia chegado a hora das malfadadas compras… Pratos, talheres, panelas ... Dá pra imaginar quantas coisinhas pequenas a gente precisa no dia a dia? Tábua de cortar, copos, xampu, travesseiro, canetas, frigideira, tigela, fronhas, tapetinho de bwc, toalhas, porta-escova-de-dente, copos, xícaras.....quer um cafezinho? Só se encontrar o filtro de papel. Achou? Legal! E agora, se você não lembrou de comprar a cafeteira, cadê o suporte para o filtro? Não existe! O pó já havia sido difícil e caro, muito caro – 250g custam uns 25 reais. Tudo bem que é importado...da Itália, da Colômbia e até do Brasil. Sabe o abridor de latas? Aquele instrumento que você nem lembrava que existia? Pois, pode ter certeza que existe e, pior, vai fazer falta.

Entendeu?

Vamos jantar! Moleza! Cadê aquela latinha de atum que comprei no mercadinho orgânico da esquina? Vai ficar ótimo com batatas (aliás, elas são duríssimas e o tempo de cozimento é absurdo. As cenouras, que são super adocicadas, ficam prontas em 1/3 do tempo). Cadê o dito abridor????? Não compramos! e ..... a primeira lata de atum, aparentemente inofensiva, estava cheia de bambu e molho de xixi de  cabrito, ou coisa que o valha.




Bandejinha de frios. Qual vai ser?

Ou seja, “mei you”, não rolou! Sanduíche então? Claro! Básico! O que pode dar errado na preparação de um queijo e presunto? Bom, pra começar, o pão era adocicado, a maionese doce mesmo, o queijo, caríssimo e difícil de achar, e o presunto ... qual? As salsichas têm canela e açúcar! Dá pra imaginar?
Pelo menos OMO é OMO, né? Só tem uns 300 tipos escritos “OMO” com cores diferentes e desenhinhos esquisitos. Acho que tem até OMO pra lavar o lacinho cor-de-rosa cintilante com lantejoulas douradas do cachorro (que não é gay) do filho mais novo do tio do lado paterno, que é o irmão mais velho do pai. Duvida?

Mas, organizar uma casa não pode ser tão difícil assim! Quer esquentar o leite no micro? Tá tudo em chinês! Quanto tempo você acha que leva pra pegar o manual do micro e o (mini) dicionário de chinês e tentar entender as instruções? E a lava-louça? Ah, quer lavar a louça na mão? Tudo bem! Como se escreve detergente em chinês? Tem uns 50 mil na prateleira. E aí, vai encarar? Lava e desinfeta, mas come suas unhas? Lava e deixa cheiro de pinho sol? Why not? Este tem bactericida e é em gel, ..., mas é pra lavar a máquina de lavar. Cadê a poioca do Minuano, o ODD, sei lá.

A máquina de lavar roupa? Qual botão? Quantos graus?
Hummmm...???? Socorro!
Quer ver TV? DVD talvez? Que tal equalizar as cores e os sons? Só enlouquecendo mesmo! O telefone fixo continua sendo uma incógnita. Tem um monte de botõezinhos e sei que podem fazer uma porção de coisas divertidas, na telinha sempre aperecem números e coisas escritas, muito legal.... O pior é que não dá pra memorizar os caracteres e achar que uma vez lido, quer dizer, olhado, já se sabe o que quer dizer. Um minuto depois eu já esqueci, não faz sentido, não tem conexão com nada, então, é preciso ler umas mil vezes antes de gravar que tal caracter quer dizer tal coisa. Tenho a impressão que estou “subutilizando” as potencialidades dos eletroeletrônicos. As crianças acham que estão morando na casa dos Jetsons. É tudo louco de chique e eletrônico: chave eletrônica de entrada, ar condicionado, as máquinas cantarolam, tudo canta ou faz sonzinhos psicodélicos (suspeito mesmo que se comunicam...). Fica difícil às vezes saber se foi a máquina de lavar que acabou, o interfone que está tocando, o telefone fixo ou o celular, se é alguém digitando a senha de entrada ou a máquina de lavar louça avisando sei lá o que. Na dúvida, fico bem quietinha e me faço de morta!

Dá até frio na barriga quando o interfone dos Jetsons toca toca. Aparece um china tagarelando do outro lado (ainda bem que ele não pode ver minha cara de desespero) e eu sei que tenho que apertar algum botão pra alguma coisa acontecer, nem que seja pra ele sumir da minha frente. Mas qual, qual desenhinho? Só “disco” e atendo o telefone, “wei, ni hao!” Se a pessoa falar “alô” ou “hello”, rola um papo, se responder “ni hao” já sei que vai ser stress! Só digo “wo bu dong, wo bu dong” (não entendo).
Vamos lavar o cabelo? Qual é o xampu? Qual é o condicionador?

 
A calefação é ligada pelo governo quando ele achar que já está frio, tudo bem que estou de meia grossa, suéter e tremendo, mas isso é coisa de burguês, camarada!
 
Então, é isso, tenho passado meus dias traduzindo manuais, queimando panelas, estudando chinês, aprendendo a ser dona de casa (coisa pra qual não tenho muito talento). A vida na China pode ser tudo, mas nunca um tédio! São tantas emoções... e eu tentando dar forma às coisas."

 




4 comentários:

  1. Esse foi seu post que mais gostei, acho q consegui sentir um pouquinho da emoção que vcs sentiram qdo chegaram ai, lendo da pra imaginar... E arregalei meus olhos varias vezes... beijocas...

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    1. Que bom que gostou, Cínthia. Fico feliz que tenha conseguido passar um pouco do que sentimos. Obrigada pelo carinho. Bjs.

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  2. Oi querida, faz tempo que queria ler o seu blog, mas faltava tempo. Hoje resolvi ler do começo ao fim e adorei. Deu pra sentir o desespero neste post. China não é pros fracos! Beijo

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    1. Obrigada Ira, querida. Você tem razão, não é para amadores rs. Beijoca.

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