sexta-feira, 16 de maio de 2014

Eunucos.

 
 Eunucos existiram em várias épocas e em diferentes lugares. Desde os Sumérios no século XXI AC até os cantores castrati, cujo último representante cantava no coral da Capela Sistina no Vaticano e faleceu em 1922.  Existiram durante o Império Otomano, na Coréia, no Vietnã, na Índia. Suas funções também eram variadas. Na China a prática teve início nos anos 200 AC e perdurou até início do século XX.

O último eunuco vivo da China foi Sun YaoTing. Ele foi castrado pelo pai quando tinha apenas 8 anos. Ironicamente apenas alguns meses antes da queda do último imperador chinês, PuYi, aquele do filme do Bertolucci "O Último Imperador". Em 1988 o diretor Zhang ZhiLing lançou o filme "O Último Eunuco da China" baseado no livro de mesmo nome do autor Jia YingHua sobre a vida de Sun YaoTing.



Num bairro meio afastado de Pequim, desde 1999 há um museu dedicado à lembrança dos eunucos. Na verdade, ele fica num lugar onde em 1605 foi enterrado numa grande cripta um eunuco chamado Tian Yi que foi muito influente na corte. Há também algumas pequenas criptas de outros eunucos neste local que é um pequeno cemitério. No meio da ruela, entre residências e lojinhas, tem uma entrada discretíssima, quase que não se nota da rua.
Dá para acreditar que há monumentos de mais de 400 anos ali do lado? Alguém sabe dizer o que as máquinas de fliperama estão fazendo ali?
Interior de uma das criptas.
   
Até algum tempo atrás o local era pouco conhecido e estava quase abandonado e se podia entrar nas criptas sem nenhuma vigilância. Havia apenas uma senhora no portão de entrada. De lá ela não saía e os raros visitantes passeavam livremente pelas criptas abertas e pelo pequeno museu. Hoje há um pouco mais de cuidado com a preservação do lugar.


 

A castração na China era total, pênis e testículos eram extirpados num só golpe com uma faquinha de lâmina curva. Os "três tesouros", como eram chamados, eram colocados numa sacolinha que os eunucos levavam amarrada à cintura. Caso morressem deveriam ser enterrados com eles para reunirem-se no pós-morte ou para que pudessem reencarnar como "homens inteiros"
Representação do processo de castração.

Nem todos sobreviviam ao processo de cicatrização. Mas, ser um eunuco na China imperial era uma maneira que as pessoas simples e pobres encontravam para ascender socialmente. A auto-castração chegou a ser proibida de tão comum que ficou em determinada época durante a Dinastia Ming (1368–1644). Para a família era um orgulho ter um filho eunuco que serviria ao Imperador. Alguns chegavam a ter tanto poder que às vezes competiam com funcionários do Estado. Estes conflitos são temas constantes de romances de época sobre intrigas de poder nas quais eunucos são pivôs de complôs e golpes.
Interior de outra cripta.
Em 1912 com o fim do Império e início da República a prática caiu em desuso, mas eles foram mantidos na Cidade Proibida junto com Imperador PuYi e sua corte até o ano de 1924 quando foram expulsos. Estima-se que havia 1500 eunucos vivendo na Cidade Proibida quando isto ocorreu.

Muitos deles haviam escolhido este modo de vida. Num relato ao sinologista britânico, John Blofeld, um eunuco fala sobre sua escolha, "Parecia uma coisa menor ter que abdicar de um prazer por muitos outros. Meus pais eram pobres e se eu apenas passasse por esta pequena mudança, teria a certeza de uma vida fácil rodeada de grande beleza e magnitude. Eu podia aspirar pela companhia íntima de mulheres adoráveis desarmadas de seus temores ou desconfiança. Eu poderia até mesmo esperar ter poder e bens que fossem meus."

Outros tempos, outro mundo....


2 comentários:

  1. Muito interessante, Glaucia! Aprendizado novo pra mim, obrigada!

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