Xinjiang, a Região Autônoma Uigur, é
a maior região administrativa da China, ocupa 30% do território do país. Mas não
parece China, não! Faz fronteira com quase todos os "istão" que existem: Paquistão,
Casaquistão, Afeganistão, Tajiquistão, Quirquistão e também com a Rússia, o
Tibete e a Mongólia. Xinjiang é cortada pela antiga Rota da Seda que por
centenas e centenas de anos foi a principal conexão entre o oriente e o
ocidente. Por ela, vários povos deixaram suas marcas. A natureza é estupenda.
Às margens da Rodovia de Karokoram - que chega até o Paquistão – há um deserto
sem fim rodeado por montanhas de gelo de picos com mais de 7000 m de
altitude. Entre elas surgem verdadeiros oásis à beira de lagos imensos perdidos
nas alturas. É de tirar o fôlego (literalmente)!
Há vários gupos étnicos em XinJiang, a maioria com números inexpressivos – como os Russos que não passam de 4 mil.
Moça Uigur. |
O maior grupo é o do povo Uigur. São turcomenos, não têm nada de chinês. Falam uma língua de origem turca com escrita arábe, não têm olho puxado não, aliás, muitos têm olhos verdes, verdíssimos! São muçulmanos, tradicionalmente não comem carne de porco nem tomam bebidas alcoólicas. Adoram música e dança. A partir dos anos 1950 o governo chinês tanto investiu na infraestrutura local como incentivou a migração de milhares de chineses da etnia Han para XinJiang. Os Han são o grupo étnico dominante da China e compõem aproximadamente 90% da população do país. A maioria dos chineses Han se estabeleceu em Urumqi, capital da região, uma cidade moderna e com boa infraestrutura. Lá já são mais que 50% da populacão.
Os Uigures são a populacão dominante nas outras localidades de XinJiang, ou Turquistão Oriental como preferem chamar alguns deles. Tem havido muitos conflitos na região e o policiamento é pesado, ostensivo e opressor. Os Uigures e os Hans têm vivido dias tensos. Muitos, milhares, de Uigures desapareceram depois dos levantes de 5 de julho de 2009. Em toda XinJiang a conexão de internet e ligações telefônicas para fora do país foram cortadas.
Policiamento em Turpan. |
A cidade de Kashgar fica a 1500 km de
Urumqi. Mas, apesar de distante da capital não está longe dos conflitos étnicos
e políticos. A grande maioria da populacão é Uigur e realmente quase não se vê chineses
Han. Em sua história, através das caravanas que se arrastaram pelo deserto ao
longo da Rota da Seda, Kashgar testemunhou impérios e dinastias da Ásia,
Oriente Médio e Mediterrâneo se erguerem e depois caírem. Um cidade que por milênios
foi o centro do comércio no mundo, globalizada antes mesmo que globalizacão fosse
feita conceito. Foi a capital dos Uigures em várias ocasiões.
Pelos arredores da cidade os bazares
(grandes feiras ao ar livre) são uma volta ao passado. Há tapetes, carneiros e
frangos vivos, cereais, instrumentos musicais, móveis. Tudo espalhado pelas
tendas armadas sobre o chão de terra seca. Milhares de pessoas trazem seus
produtos para comercializar, a maioria no lombo de burros, outros na caçamba
acoplada à motoca que transborda de mercadorias e gente em cima. Mulheres,
homens e crianças, famílias inteiras às vezes.
A vida pelas ruas de Kashgar. |
Produtos à venda nos bazares. |
Nas ruas da cidade ao lado dos
carros e ônibus, burricos e motocas convivem numa ordem que só os habitantes
locais conseguem entender. No bairro antigo o comércio é colorido e
diversificado, tudo é exposto fora das lojinhas: ferramentaria, ervas, frutas e
legumes, panos, animais vivos, e abatidos também, cobras, sapos e lagartos
secos (para remédios). E os pães.....conhecidos como pizza de XinJiang são uma massa sem
recheio, crocante e saborosa. Têm desenhos de estrelas (chinesas) e crescentes
(muçulmanas) feitos na massa. Acompanha as refeições mas também faz um
lanchinho delicioso.
Pelas ruelas estreitas da cidade antiga as crianças brincam e pedestres e motocas disputam espaço. Mulheres com cabelo e rosto cobertos passam bem faceiras dirigindo suas motocas com assentos forrados de tecido de oncinha, zebra, cobra... Artesãos e ferreiros de portas abertas cinzelam e moldam objetos que assim que ficam prontos já são pendurados do lado de fora para venda.
As casas têm portas pintadas de cores fortes e alegres que contrastam imensamente com as paredes externas de tijolo ou taipa cor de areia. As residências são mais bem cuidadas do lado de dentro, com jardins e varandas, do que aparentam ser por fora. As portas de entrada encantam pelo colorido contrastante, mas algumas também revelam detalhes pertubadores. Nelas, o governo chinês afixa plaquinhas com indicações em mandarim e uigur que classificam os moradores como "família pacífica e bem educada”, "gente civilizada”, "confiável e honesta”, "família pobre ajudada pelo Estado”, etc.
Pelas ruelas estreitas da cidade antiga as crianças brincam e pedestres e motocas disputam espaço. Mulheres com cabelo e rosto cobertos passam bem faceiras dirigindo suas motocas com assentos forrados de tecido de oncinha, zebra, cobra... Artesãos e ferreiros de portas abertas cinzelam e moldam objetos que assim que ficam prontos já são pendurados do lado de fora para venda.
As casas têm portas pintadas de cores fortes e alegres que contrastam imensamente com as paredes externas de tijolo ou taipa cor de areia. As residências são mais bem cuidadas do lado de dentro, com jardins e varandas, do que aparentam ser por fora. As portas de entrada encantam pelo colorido contrastante, mas algumas também revelam detalhes pertubadores. Nelas, o governo chinês afixa plaquinhas com indicações em mandarim e uigur que classificam os moradores como "família pacífica e bem educada”, "gente civilizada”, "confiável e honesta”, "família pobre ajudada pelo Estado”, etc.
É muito chocante ver de perto uma
cultura tão antiga e tão rica sendo obscurecida. Bairros de construções de mais
de mil anos são completamente destruídos para a que se levantem prédios de
apartamentos apertados e moderninhos. A história Uigur é recontada na versão oficial
chinesa, seus heróis apagados ou “achinesados”, sua língua proibida nas escolas,
sua música e dança pasteurizadas. E eles estão impontentes. Diferente do Tibete, não têm celebridade internacional que defende a sua causa aos olhos do mundo.
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Em XinJiang há múmias de mais de 3 mil anos e ruínas de civilizações que não existem mais, mesquitas muçulmanas e pagodas budistas, crianças lindas e alegres, gente desconfiada e toda enrolada em panos. No Turquistão Oriental a História da Humanidade grita aos nossos ouvidos de estourar os tímpanos, a beleza é desconfortavelmente atraente e a sensacão conjunta de pertencimento e perda chega a sufocar. Não há como resistir, não há como sair ileso.
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